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Betaras no píer de Cidreira 

 

No litoral gaúcho, uma pescaria que não exige barcos ou grandes deslocamentos territoriais. Na segurança de uma plataforma artificial, a surpresa pode vir em forma de betaras, peixe esportivo também conhecido como papa-terra. Nesta reportagem, um especialista em fly troca de equipamento e se prepara para aprender mais uma jogada técnica. Tudo entre amigos.

Por Alvaro Mouawad Fotos M. Angling - Pesca 54 - Agosto 2001

 

Há vários anos, em viagem de férias pelos EUA, fui convidado por um amigo que sabia da minha paixão pela pesca a conhecer um de seus lugares favoritos para fisgar bons peixes.

 Tratava-se de uma plataforma de pesca localizada em Imperial Beach, nas proximidades de San Diego, Califórnia. Num ensolarado dia de verão (confirmando a canção que diz nunca chover no sul da Califórnia) lá fomos nós pescar na dita plataforma, também conhecida por píer. O saldo da pescaria foi um pequeno tubarão-martelo, uma corvina e um par de sardinhas. Todos capturados pelo meu amigo, pois após uma hora me acotovelando lado a lado com quase uma centena de "gringos" resolvi abandonar os trabalhos e curtir tanto as belezas da natureza como as "circulantes", enquanto bebericava uma cerveja. Esta plataforma adentrava o oceano Pacífico por uns 500 metros e era um tradicional ponto de encontro dos pescadores da região.

De lá para cá cruzei por algumas plataformas de pesca, a maioria localizada em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e na Argentina. Nestes lugares, as características comuns em parte do litoral fazem das grandes plataformas de concreto que avançam mar a dentro, a única maneira de o pescador alcançar os pontos mais produtivos. Ao contrário das conhecidas praias de tombo do litoral brasileiro, em que os canais por onde circulam bons peixes estão localizados a cerca de 50 metros da praia, nestes ambientes, os canalões, ou valos, estão a mais de 200 metros da areia. Em função disto a construção de plataformas prosperou e incorporou-se ao cenário do litoral sul.

DUNAS E MAR

Da mesma forma como conheci a plataforma californiana, foi também graças ao convite de um amigo que fui apresentado a uma das mais piscosas estruturas de pesca do litoral sul, a plataforma de pesca de Cidreira. Estávamos com tudo combinado para um fim de semana de pescaria, onde eu receberia algumas aulas desta especialidade "pescativa", quando na noite anterior meu parceiro ligou desculpando-se e informando que não poderia me acompanhar. Todo pescador sabe que nada pode ser mais frustrante do que desfazer toda a tralha já preparada, ou pior ainda, desfazer nossa expectativa e ansiedade que sempre antecedem uma pescaria. Tão logo desliguei o telefone tomei uma decisão: eu iria de qualquer maneira. E assim o fiz. Com o dia clareando já estava na estrada ladeada por dunas de areia que me levariam até a praia de Cidreira. Criado em 1930, o município de Cidreira é um dos mais antigos do litoral gaúcho, ocupando uma área de 234 quilômetros quadrados muito rica em belezas naturais, lagoas e grandes reservas de ecossistemas úmidos.

 Tendo uma população fixa de cerca de 8 mil habitantes, chega a abrigar na alta temporada de verão quase 100 mil pessoas. Um dos símbolos de Cidreira, junto com a plataforma de pesca e o farol, são as dunas, consideradas as mais extensas da América Latina. Nos 10 quilômetros de praias largas e areia fina do balneário de Cidreira sempre é possível se avistar as dunas que as margeiam, algumas delas atingindo alturas superiores a 30 metros - e que já se tornaram patrimônio histórico e natural da região.
A plataforma de Cidreira foi projetada e construída em um ponto privilegiado da costa gaúcha em meio a um grande poço e junto a um recife-habitat que abriga uma rica fauna marinha. Com seus 500 metros, oferece lanchonete, salão coberto, churrasqueiras internas e externas, tanques para limpar peixes, banheiros, lojas de venda de iscas e material de pesca e centenas de porta-varas nas suas muradas. Graças aos "modernismos" da informática pude no dia anterior acessar o site da plataforma e obter informações sobre o tempo, vento dominante, temperatura, além de pesquisar sobre a incidência de cada espécie que ocorre na região em relação às variáveis naturais como fase da lua, vento, temperatura, etc. Coisa de primeiro mundo. Tão logo cheguei, estava curioso para conferir se o conhecido lema que dizia ser a plataforma um lugar onde "amigo pesca com amigo", era verdadeiro. Pois não são raros os ambientes de pesca onde o clima de relativa competitividade acaba por criar um certo isolamento para os recém-chegados. Mas, realmente, não foi o que aconteceu desta vez.

ENTRE AMIGOS

Tão logo comecei a conversar com os pescadores que freqüentavam a plataforma, pude perceber um clima sincero de camaradagem e companheirismo, que se traduzia claramente pelas informações e dicas, assim como pela simpatia em esclarecer as dúvidas que eu apresentava. Como o peixe "da hora" era a betara ou papa-terra (Menticirrhus americanus) pude fartar-me com preciosas dicas de equipamentos e macetes entre os muitos peixes que iam sendo capturados. Não raros eram os momentos em que ao recolher a linha eu podia sentir um peso acima do normal e juntos vinham fisgados três betaras de cada vez. Alguns mestres da pesca em plataformas como o Pantoja, o Cordeiro e o Juceval deram-me informações e alguns macetes fundamentais para quem busca o sucesso na captura desta espécie. São muitos os segredos da pesca da betara ou papa-terra. Um dos mais importantes e a localização exata de onde lançar a isca. Sendo a betara uma espécie que costuma ingerir seu alimento por sucção é fundamental buscar os canalões ou valos e neles procurar lançar a isca na parte posterior onde quebram as ondas. Ali, o turbilhão formado pelas águas acaba por movimentar a areia do fundo deslocando os alimentos depositados e propiciando às betaras um farto banquete.
Quanto a melhor época do ano para a sua pesca, o trio de especialistas informou que a betara é produtiva durante o ano todo, mas que no período entre abril e dezembro é comum a captura de maiores exemplares e em maior quantidade.

 Nos meses de verão a pesca nas praias do litoral sul é um pouco menos produtiva. Após uma verdadeira aula relâmpago sobre a pesca da betara em plataforma, eu ainda precisava saber sobre as iscas e os equipamentos a serem utilizados. E graças ao amigo Jone fui apresentado a Cipriano, pescador profissional e um verdadeiro mestre na pesca de praia e plataforma. Nascido e criado na região, o pescador Cipriano abriu para mim as portas desta modalidade de pesca sendo que graças a suas preciosas informações minha produtividade com as betaras praticamente triplicou de um dia para o outro.

DICAS CERTAS
Segundo Cipriano, o equipamento adequado, o local escolhido, as iscas e mesmo a temperatura da água são fatores determinantes para o sucesso na captura deste peixe. Em termos de temperatura a água deve estar entre 13 e 16 graus centígrados, sendo que os 14 graus parecem ser o ideal. A escolha da melhor fase da lua parece ser a lua nova uma das mais indicadas e a ausência de forte correnteza lateral ou repuxo parece também ser um ponto a ser levado em conta. Mas foi com as iscas que o Cipriano me mostrou todo seu conhecimento. A hora exata para capturar os corruptos (crustáceos, não os outros) graças a sua denúncia pela presença de pequenos buracos na areia molhada da praia, até então imperceptíveis para mim, foi nota dez. Também a seleção e forma de iscar os pequenos anzóis com a minhoca do mar, segundo ele a melhor isca para as betaras, e a escolha do camarão das lagoas litorâneas das redondezas para seduzir os peixes mais inapetentes foram dicas preciosas. 
Com todas estas informações adequadas e os conhecimentos adquiridos pude comprovar que a pesca de plataforma é bastante produtiva e prazerosa quando praticada com material adequado. A sensação de que estamos pescando em meio a um mar com grandes ondas enquanto desfrutamos de certos confortos e da estabilidade da "terra firme" é sempre muito bem-vinda. E pude também comprovar que a frase que dizia que na plataforma "amigo pesca com amigo" era totalmente verdadeira. Tanto que já agendei com meus novos amigos e mestres uma pescaria de viola para o final do ano. Pelo visto logo estarei aceitando trocar algumas varas de fly por longas varas para pesca de mar. Me esperem.