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Há vários anos, em viagem de
férias pelos EUA, fui convidado por um amigo que sabia da minha
paixão pela pesca a conhecer um de seus lugares favoritos para
fisgar bons peixes.
Tratava-se de uma
plataforma de pesca localizada em Imperial Beach, nas proximidades
de San Diego, Califórnia. Num ensolarado dia de verão (confirmando a
canção que diz nunca chover no sul da Califórnia) lá fomos nós
pescar na dita plataforma, também conhecida por píer. O saldo da
pescaria foi um pequeno tubarão-martelo, uma corvina e um par de
sardinhas. Todos capturados pelo meu amigo, pois após uma hora me
acotovelando lado a lado com quase uma centena de "gringos" resolvi
abandonar os trabalhos e curtir tanto as belezas da natureza como as
"circulantes", enquanto bebericava uma cerveja. Esta plataforma
adentrava o oceano Pacífico por uns 500 metros e era um tradicional
ponto de encontro dos pescadores da região.
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De lá para cá cruzei por
algumas plataformas de pesca, a maioria localizada em Santa
Catarina, Rio Grande do Sul e na Argentina. Nestes lugares, as
características comuns em parte do litoral fazem das grandes
plataformas de concreto que avançam mar a dentro, a única maneira de
o pescador alcançar os pontos mais produtivos. Ao contrário das
conhecidas praias de tombo do litoral brasileiro, em que os canais
por onde circulam bons peixes estão localizados a cerca de 50 metros
da praia, nestes ambientes, os canalões, ou valos, estão a mais de
200 metros da areia. Em função disto a construção de plataformas
prosperou e incorporou-se ao cenário do litoral sul.
DUNAS
E MAR
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Da mesma forma como conheci
a plataforma californiana, foi também graças ao convite de um amigo
que fui apresentado a uma das mais piscosas estruturas de pesca do
litoral sul, a plataforma de pesca de Cidreira. Estávamos com tudo
combinado para um fim de semana de pescaria, onde eu receberia
algumas aulas desta especialidade "pescativa", quando na noite
anterior meu parceiro ligou desculpando-se e informando que não
poderia me acompanhar. Todo pescador sabe que nada pode ser mais
frustrante do que desfazer toda a tralha já preparada, ou pior
ainda, desfazer nossa expectativa e ansiedade que sempre antecedem
uma pescaria. Tão logo desliguei o telefone tomei uma decisão: eu
iria de qualquer maneira. E assim o fiz. Com o dia clareando já
estava na estrada ladeada por dunas de areia que me levariam até a
praia de Cidreira. Criado em 1930, o município de Cidreira é um dos
mais antigos do litoral gaúcho, ocupando uma área de 234 quilômetros
quadrados muito rica em belezas naturais, lagoas e grandes reservas
de ecossistemas úmidos.
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Tendo uma população
fixa de cerca de 8 mil habitantes, chega a abrigar na alta temporada
de verão quase 100 mil pessoas. Um dos símbolos de Cidreira, junto
com a plataforma de pesca e o farol, são as dunas, consideradas as
mais extensas da América Latina. Nos 10 quilômetros de praias largas
e areia fina do balneário de Cidreira sempre é possível se avistar
as dunas que as margeiam, algumas delas atingindo alturas superiores
a 30 metros - e que já se tornaram patrimônio histórico e natural da
região. A plataforma de Cidreira foi projetada e construída em um
ponto privilegiado da costa gaúcha em meio a um grande poço e junto
a um recife-habitat que abriga uma rica fauna marinha. Com seus 500
metros, oferece lanchonete, salão coberto, churrasqueiras internas e
externas, tanques para limpar peixes, banheiros, lojas de venda de
iscas e material de pesca e centenas de porta-varas nas suas
muradas. Graças aos "modernismos" da informática pude no dia
anterior acessar o site da plataforma e obter informações sobre o
tempo, vento dominante, temperatura, além de pesquisar sobre a
incidência de cada espécie que ocorre na região em relação às
variáveis naturais como fase da lua, vento, temperatura, etc. Coisa
de primeiro mundo. Tão logo cheguei, estava curioso para conferir se
o conhecido lema que dizia ser a plataforma um lugar onde "amigo
pesca com amigo", era verdadeiro. Pois não são raros os ambientes de
pesca onde o clima de relativa competitividade acaba por criar um
certo isolamento para os recém-chegados. Mas, realmente, não foi o
que aconteceu desta vez.
ENTRE AMIGOS
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Tão logo comecei a conversar
com os pescadores que freqüentavam a plataforma, pude perceber um
clima sincero de camaradagem e companheirismo, que se traduzia
claramente pelas informações e dicas, assim como pela simpatia em
esclarecer as dúvidas que eu apresentava. Como o peixe "da hora" era
a betara ou papa-terra (Menticirrhus americanus) pude fartar-me com
preciosas dicas de equipamentos e macetes entre os muitos peixes que
iam sendo capturados. Não raros eram os momentos em que ao recolher
a linha eu podia sentir um peso acima do normal e juntos vinham
fisgados três betaras de cada vez. Alguns mestres da pesca em
plataformas como o Pantoja, o Cordeiro e o Juceval deram-me
informações e alguns macetes fundamentais para quem busca o sucesso
na captura desta espécie. São muitos os segredos da pesca da betara
ou papa-terra. Um dos mais importantes e a localização exata de onde
lançar a isca. Sendo a betara uma espécie que costuma ingerir seu
alimento por sucção é fundamental buscar os canalões ou valos e
neles procurar lançar a isca na parte posterior onde quebram as
ondas. Ali, o turbilhão formado pelas águas acaba por movimentar a
areia do fundo deslocando os alimentos depositados e propiciando às
betaras um farto banquete. Quanto a melhor época do ano para a
sua pesca, o trio de especialistas informou que a betara é produtiva
durante o ano todo, mas que no período entre abril e dezembro é
comum a captura de maiores exemplares e em maior quantidade.
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Nos meses de verão a
pesca nas praias do litoral sul é um pouco menos produtiva. Após uma
verdadeira aula relâmpago sobre a pesca da betara em plataforma, eu
ainda precisava saber sobre as iscas e os equipamentos a serem
utilizados. E graças ao amigo Jone fui apresentado a Cipriano,
pescador profissional e um verdadeiro mestre na pesca de praia e
plataforma. Nascido e criado na região, o pescador Cipriano abriu
para mim as portas desta modalidade de pesca sendo que graças a suas
preciosas informações minha produtividade com as betaras
praticamente triplicou de um dia para o outro.
DICAS
CERTAS Segundo Cipriano, o equipamento adequado, o local
escolhido, as iscas e mesmo a temperatura da água são fatores
determinantes para o sucesso na captura deste peixe. Em termos de
temperatura a água deve estar entre 13 e 16 graus centígrados, sendo
que os 14 graus parecem ser o ideal. A escolha da melhor fase da lua
parece ser a lua nova uma das mais indicadas e a ausência de forte
correnteza lateral ou repuxo parece também ser um ponto a ser levado
em conta. Mas foi com as iscas que o Cipriano me mostrou todo seu
conhecimento. A hora exata para capturar os corruptos (crustáceos,
não os outros) graças a sua denúncia pela presença de pequenos
buracos na areia molhada da praia, até então imperceptíveis para
mim, foi nota dez. Também a seleção e forma de iscar os pequenos
anzóis com a minhoca do mar, segundo ele a melhor isca para as
betaras, e a escolha do camarão das lagoas litorâneas das redondezas
para seduzir os peixes mais inapetentes foram dicas
preciosas. Com todas estas informações adequadas e os
conhecimentos adquiridos pude comprovar que a pesca de plataforma é
bastante produtiva e prazerosa quando praticada com material
adequado. A sensação de que estamos pescando em meio a um mar com
grandes ondas enquanto desfrutamos de certos confortos e da
estabilidade da "terra firme" é sempre muito bem-vinda. E pude
também comprovar que a frase que dizia que na plataforma "amigo
pesca com amigo" era totalmente verdadeira. Tanto que já agendei com
meus novos amigos e mestres uma pescaria de viola para o final do
ano. Pelo visto logo estarei aceitando trocar algumas varas de fly
por longas varas para pesca de mar. Me esperem. |
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